Tuesday, July 14, 2009

Prova de amor.

Haverá maior prova de amor - do amor de toda uma vida, da partilha de anos enquanto casal -que o cuidar do outro até ao fim, até ao último suspiro?... Ter ficado porque algo a impeliu a isso, algo lhe disse que hoje a hora da visita era uma mera formalidade. Morte. E só depois, só depois chorar a sua perda e sentir o desespero, o abismo do momento de solidão entre o terreno e o mais além... Fazer a derradeira despedida e partir em silêncio, acompanhada pelos frutos dessa vida em comum, filhos de cara inchada que choraram também, o momento que não queriam que se desse jamais.
Hoje assisti a um momento assim. Duro... mas bonito. Não se trata apenas de dor, de morte, de luto. Trata-se de cuidar e de amar. A morte também é isso. É bom percebê-lo.

Monday, July 13, 2009

Papéis que a vida nos faz assumir.

Às vezes sinto que carrego um peso sobre os ombros superior ao que os meus ombros podem suportar. Oiço, vejo e sinto o que, acho, talvez não devesse ouvir, ver e sentir. Vejo o tempo, o desgaste, a distância. Sinto a tristeza, a solidão, o sentimento de inutilidade. Oiço os desabafos, as discussões e os laivos de desespero. E não quero. Quero fugir, às vezes, para bem longe. Sinto que sou a única e que, às vezes, pouco importa o que sou e qual o meu papel, porque tenho de ter outro. E não quero, mais uma vez não quero. Fingir que tudo está bem. É o tempo, é a situação... é a vida a ser injusta uma e outra vez, ou as escolhas a que ela obriga, ou ele... não sei. Mas não quero ser o saco... aquele que leva e leva e apenas baloiça... porque não sou assim. Eu faço mais do que baloiçar. E, afinal, o meu papel não é este. Mas será que posso fugir a ele?...

Aldeia do Mato

Um domingo diferente. Acordar mais cedo do que seria habitual num dia de folga, apanhar duas amigas e partir numa viagem de carro de 1h30 ao encontro de amigos que já não víamos há algum tempo e que já fazia falta ouvir e abraçar.
Um dia alheada da realidade, de Lisboa, do dia-a-dia. Sem rede de telemóvel, debaixo do sol, deitada na relva, a tomar banho no rio cuja água até tinha uma temperatura bem agradável. A partilhar a sombra com o novo membro do grupo de viagens por esse mundo fora (tão pequenina e tão linda!, a Maria!)... e com conversas longas, sentidas gargalhadas, repousos merecidos.
O local era maravilhoso, Parque Náutico da Aldeia do Mato... recomendo vivamente! E a companhia tranquilizadora e libertadora... estava mesmo a precisar de um dia assim.
Obrigada a vocês por o tornarem tão bom; a ti, natureza, por teres recantos assim, que são tesouros; e aos homens que, ainda tendo mexido nessa natureza para a tornar mais segura para nós, não a feriram.

ACARAVANA

«Acaravana» é um espectáculo sobre a (in)comunicação, a singularidade do indivíduo e a sua identidade colectiva. Relatos de histórias contadas numa representação total onde o corpo do actor assume todos os recursos. De Pequim a Veneza, a maior de todas as rotas é aquela que se faz entre cada ser, preservando a sua essência, fazendo-os existir quando cada um se quis realmente plural. Esta peça do Teatro Meridional faz-se com panos, evocando uma viagem que ligou o mundo através de caminhos e vontades. De cidade em cidade. Quando o percurso, mais do que a promessa de um destino, é a possibilidade de um encontro.
Foi neste sábado à noite que mais uma vez me deliciei com uma noite de teatro naquele espaço já conhecido, o teatro Meridional.
Acaravana surpreendeu por imagens belíssimas criadas com panos flutuantes e coloridos. Pela história por trás da história. A rota das sedas representada por episódios quotidianos dos vários países e gentes que dela faziam parte. Desde a China, à Índia, ao mundo muçulmano e à Itália. Uma viagem pelo mundo, pelos sotaques, pelas vestes. Uma viagem pelo que somos. Pela nossa constante procura e insatisfação. Pela nossa ânsia de percebermos quem somos, onde vamos e como queremos chegar lá. E a nossa, não tão pouco habitual, falta de resposta para todas estas questões. Olhá-la sem a ver, ouvi-la sem a escutar, senti-la sem...

Monday, June 29, 2009

... porque há dias assim.

Ando preguiçosa para escrever aqui... talvez porque o cansaço é muito e o meu tempo tem sido dispendido, na sua grande maioria, em turnos no serviço... Agora vêm aí umas folgas, finalmente!, e poderei escrever mais... Hoje, aqui no serviço, a fazer mais uma noite longa... ontem 16h que me levaram ao limite, em que saí daqui triste, profundamente triste, porque andamos por cá a fazer tudo pelas pessoas e as pessoas retribuem com má educação, agressividade e insultos. Tudo passa, e sei que não é sempre assim, mas ontem (talvez fosse da chuva e do dia cinzento, não sei!) as pessoas estavam loucas... e eu também fiquei.

Saturday, June 6, 2009

Ontem.

Dia (de ontem) complicado. De dor profunda. De tristeza, saudade e despedida. Também de encontro e amizade, aquela que não se explica, que existe, sem necessidade de palavras, que diz tudo com abraços apertados.
Amiga... a garantia de que estamos sempre aqui, para ti e contigo. És uma mulher de uma força inexplicável. 1000 rosas vermelhas, cravos e beijinhos para ti. Porque sim.

Wednesday, June 3, 2009

Perguntas com respostas difíceis.

Perguntas que sabia que iriam surgir. Perguntas para as quais talvez já soubesses, lá no íntimo, as respostas, mas que tinhas de ouvir por alguém que as pudesse confirmar. Como estão eles? Eles, muitos deles, a maioria, já não estão entre nós. Dureza em palavras que não conseguimos tornar mais leves. A morte traz isso consigo muitas vezes, dureza. Mas traz tudo o resto também... saudade, memórias, recordações, os momentos que só nós, e mais ninguém, partilhou com aquele doente, com aquela família... e que foram bons, difíceis mas bons. E os que não foram tão bons? Ajudam-nos a pensar como os tornar melhores da próxima vez. Não há livro algum que nos dê receitas sobre "o que fazer como enfermeira em situações de doença terminal"... e se dá, não é um bom livro. Existem muitos sim, que nos ajudam a reflectir práticas. Esses sim, vale a pena ler. E vale a pena ler-mo-nos a nós mesmos, ao que fizemos e não fizemos, à razão que nos levou a fazer ou não fazer, o que nos assustou, o que dissemos quando ele nos disse "vou morrer no hospital", o que sentimos então, o que fomos capazes de fazer e o que nos assustou demais e nos impediu de dar um passo mais neste percurso.
Mas só o simples facto de nos questionármos mostra que não passou ao lado... e se não passou ao lado é porque valeu a pena. Doeu? Custou?.... E agora?... Depois de tudo, valeu a pena ou não?
Esta é dedicada a ti, V., pelo mail que me mandaste e pelo mail que irás receber como resposta... e a todos, aos 9, porque acreditem, valeu a pena.