Enquanto enfermeira deparo-me todos os dias com dor e sofrimento e lido frequentemente com a morte ou a sua proximidade. Não querendo parecer "fria", uma pessoa de certo modo acostuma-se e aprende a compreender a naturalidade de todo o processo e a sua inevitabilidade. Mas, nem sempre é assim. Porque nem todas as mortes são tranquilas. E aí, sim, tudo muda... Hoje tive um dia difícil enquanto enfermeira. Hoje não contive as lágrimas enquanto o acompanhava porque a sensação de impotência foi devastadora. Não suporto ver pessoas a morrer com falta de ar, com dificuldade respiratória, com sensação de asfixia. São normalmente aquelas pessoas que nos últimos momentos nos colocam as perguntas mais difíceis, que mais conscientes estão de tudo, que não conseguem sentir-se bem de modo algum. Revolta-me ter estado nesta situação demasiado tempo quando existem formas de o aliviar. Revolta-me ter estado a seu lado, de mão dada, enquanto o tentava acalmar, garantindo que não estava sozinho... e apenas me dizia que não conseguia ficar calmo porque não conseguia respirar. Revolta-me que tenha estado assim mais de uma hora, enquanto o sangue lhe invadia os pulmões e o impedia de respirar. Revolta-me que apenas depois desse tempo a terapêutica adequada tenha sido posta em curso e finalmente, tenha conseguido ficar tranquilo, na companhia de quem toda uma vida permaneceu a seu lado, mesmo após a separação. Depois de tudo apenas algo me aliviou a sensação de vazio... saber que nunca esteve sozinho. Saber que quando apertava a minha mão à procura de algo, encontrou esse algo. E que quando eu lhe dizia "não se preocupe, não está sozinho", a sua mão apertava mais forte. Sinto que precisava da minha/nossa presença, e que estivemos lá. Mas como disse ao dr. P. no final, tudo se devia ter iniciado mais cedo... sem sujeitármos a pessoa a todo aquele sofrimento. Sei, através de uma colega, que até há cerca de 2 horas ainda estava entre nós, mas mantendo-se tranquilo. Espero que parta em paz e sem mais sofrimento. Obrigada por o que me deu, como tantos outros, sem se aperceber. Aprendemos às vezes com experiências que nos são intimamente muito difíceis... Hoje foi um desses dias.
Monday, May 7, 2012
Wednesday, April 25, 2012
Monday, April 2, 2012
Porque às vezes cuidar do outro é algo inato, sem cursos, sem diplomas... porque não interessa a origem mas o objectivo e o fim... porque as relações entre dois seres humanos são relações entre dois seres humanos... porque convém esquecer por vezes o que o outro não é capaz de fazer, as limitações que tem, para então permitir que desenvolva todas as suas potencialidades... porque brincar e rir com "assuntos sérios" ajuda a relativizar tudo e aprender a conviver com o que é inevitável... porque há coisas simples que são complexas... porque o limite está naquilo que não tentamos fazer... porque os actores são fabulosos e desempenham papéis extraordinários... porque a história é magnífica... porque o filme nos prende desde o primeiro segundo... por tudo isto, recomendo. Delicioso do princípio ao fim. Um aplauso ao cinema francês.Sunday, March 25, 2012
Às vezes, pensar um pouco fora do que é o nosso padrão diário de comportamento permite-nos viver pequenos grandes momentos que nos marcam e nos fazem pensar na vida...
Ela, sem abrigo. Eu, levada literalmente pela expressão "mais olhos que barriga" compro comida a mais no Pingo Doce para uma fome que não precisava de tanta coisa para ser saciada. Olhá-la, aproximar-me, falar com ela. Oferecer... esperando que não leve a mal. Sair com um suspiro, rumo ao meu destino final, pensando como naquele dia o estômago dela poderá ficar um pouco menos vazio... com algo tão simples.
É aquele olhar. Aquele "nem penses" que me puxa para ti e não me deixa virar a cara. É o meu silêncio que diz tudo e o que digo também por palavras. O teu pedido de desculpa. E depois é tudo o resto. Como são bons aqueles momentos em que não me apetece descolar-me de ti. Como é fantástico o improviso, a descoberta, a novidade. A maravilha de arriscar um pouco, de me deixar ir, de perder o controlo... e, ao mesmo tempo, o encontrar-me novamente.
Sunday, March 4, 2012

Cheguei a casa após ver este filme. De sorriso na cara, com emoção contida. Um filme tão simples e tão complexo. No fundo, sobre aquele dia que mudou o mundo e mudou, para sempre, a cidade de Nova Iorque. A morte de um pai que era amigo, companheiro de aventuras, que era tudo para aquela criança - "I know now that I can live without you...". As palavras que se escutam várias vezes ao longo do tempo... as últimas palavras, o telefone que não se atreveu a levantar. A aventura do encontro de uma fechadura onde aquela chave coubesse... no fundo, a procura dele, que partiu, e que não estava disposto a aceitar que tinha perdido. O encontro daquela outra pessoa, começo de tudo, que esteve ausente tanto tempo... - "Yes... No...", por escrito, em mímica facial, em olhares e sorrisos cúmplices, em mãos tatuadas. Os gestos iguais, as conversas silenciosas que dizem tanto. O encontro de tantos e tantos rostos, inúmeras histórias... as "cores" da cidade, a multiculturalidade daquele sítio onde se encontra gente de todo o mundo... e onde todos, de um modo ou outro, perderam algo com o 11 de Setembro. A inteligência e inocência de uma criança, o superar de medos... A criação de um livro que mostra uma aventura. A imagem do corpo a cair... E o (re)encontro com aquela mãe... aparentemente perdida, e afinal tão presente. Uma forma inteligente e brilhante de retratar um acontecimento historicamente demasiado avassalador, fazendo lembrar um pouco aquele outro filme, A Vida é Bela, e a forma como um outro acontecimento histórico de consequências devastadoras para a Humanidade, é retratado sob o olhar de um jogo de criança.
Recomendo a quem possa ver e a quem não possa, recomendo que faça por poder. Encheu-me as medidas.
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