Tuesday, February 14, 2012

Mais um dia 14 de Fevereiro... aquele dia onde só se vê corações nas montras, ursinhos de peluche por todo o lado, casais a sair para jantar nos múltiplos restaurantes da cidade... aquele dia que dizem ser o dia do amor. Sim, como a grande maioria das pessoas, poderia dizer: "não ligo nenhuma... mais um dia para o capitalismo". Pois sim, mas quando não se pode partilhá-lo com alguém com quem tal faça sentido, isso mexe connosco. E a verdade, é que se ninguém ligasse os restaurantes não estariam cheios, em casa não se preparariam jantares especiais e nas lojas não se comprariam prendas para o companheiro/a. Não quero saber das prendas... mas quero os beijos, a partilha, os abraços, as palavras, os olhares. E este ano, como tantos outros, não o vou ter. E hoje, um dia ainda mais especial, porque sim... porque me traz boas memórias... me lembra um começo de algo. E estou sozinha. E vou trabalhar mais logo. E quero que o dia acabe rapidamente porque gostava que "alguém" compreendesse mas não me parece que isso aconteça.


Why is love not enough?...

Saturday, January 14, 2012

Quanto mais conheço algumas pessoas e algumas histórias de vida, mais me apaixono pelo ser humano. Pela complexidade dos nossos pensamentos, da nossa forma de sentir, de amar, de ultrapassar obstáculos inimagináveis... É verdade que também me desiludo, também me choca o que as pessoas são capazes de fazer, a maldade que conseguem carregar dentro de si. Mas o ser humano fascina-me...

Sunday, January 8, 2012

Apetece-me falar de si. Com períodos de um trato rude, de protesto com os cuidados recebidos ou com a desorganização do serviço, tudo acalmava quando recebia um pouco de atenção e alguém conversava um pouco consigo. A sua doença, em estadio terminal, "comia-lhe" o sangue que lhe dávamos a uma velocidade exasperante e os benefícios que as transfusões lhe traziam duravam apenas alguns dias... dias esses em que se sentia revigorado, cheio de energia e força, acreditando que tudo poderia ficar bem. Numa das nossas conversas falou-me dos seus gatos. Notei no seu tom uma saudade imensa, um amor não mensurável, um desejo enorme de os ver. Falei com a equipa. Podíamos propôr à família que trouxesse os gatos até ao serviço mas o senhor, quando confrontado com essa ideia, disse logo que lhe parecia difícil, porque achava que nem a filha nem o neto conseguiriam apanhá-los para os pôr no meio de tranporte adequado. Nova conversa, desta vez multidisciplinar. Quando parar em relação a este senhor? Ainda que as transfusões acarretassem benefícios, eram a demasiado curto prazo e o sangue é um bem essencial que não pode ser usado sem critérios. A decisão: última transfusão, para permitir que o senhor recuperasse o "fôlego" para se deslocar na companhia da família a casa e passar o dia com os gatos. Algo aparentemente tão banal, tão irrisório. Regressou com um sorriso que nunca lhe tinha visto. Ainda que sempre tenha sido difícil para si compreender que a sua morte estava perto (negação talvez, de um prognóstico que ninguém quer para si...) algo parecia prendê-lo cá. Aquele sorriso emanava calma, tranquilidade, ponderação. Dois dias depois regressou em força o cansaço, a diminuição da força... e tinha chegado o momento de parar. Não mais sangue, como se tinha decidido. Apenas medicação para quem, demasiado consciente de tudo o que se passava à sua volta, via o momento final a aproximar-se... evitando dor, evitando dificuldade respiratória... Tudo se passou rapidamente, muito mais rapidamente do que qualquer um de nós estava à espera. E calmamente... Creio que fez a sua despedida, concretizou o seu último desejo. E na companhia de uma família que, durante algum tempo, teve atitudes que são difíceis de entender... mas que também "quebrou" perante o carinho que, creio, se apercebeu que lhe demos durante o seu internamento. O seu sentido para a vida foi, sem dúvida alguma, também o sentido para uma serenidade na morte.

Wednesday, January 4, 2012

O que dizem os meus olhos?...

Monday, December 26, 2011

Natal... no hospital.

Ser enfermeira acarreta algumas coisas menos positivas. Ter de fazer turnos que nos alteram rotinas e o próprio organismo, que não sabe se é hora de dormir, acordar, comer ou trabalhar... é uma delas. Outra, e para mim, a pior de todas, implica que em determinadas datas festivas, que toda a minha vida passei em família, tal como o Natal, eu posso ter de trabalhar. Este ano aconteceu isso. E não foi nada fácil. Entrei às 15h de dia 24 e terminei o trabalho às 9h de dia 25. A tarde foi de muito trabalho, mas permitiu ainda sentir algum do espírito natalício... no entanto, a noite trouxe consigo muita tristeza, muita azáfama, um pequeno grande caos... e trouxe consigo também a morte, tão pouco desejada, e acompanhada de muito sofrimento, com imagens que acho, não vou esquecer tão cedo... as lágrimas vieram-me aos olhos por várias vezes durante a noite e tudo o que me apetecia era o calor da minha casinha e a companhia de quem quero bem... família e amigos. Valeu mesmo estar a trabalhar com uma colega que, antes de mais, é também amiga, e ver alguns sorrisos bons de um ou outro doente que desfrutaram de uma rabanada ou de uma saída rápida do serviço para um jantar com os amigos... "e foi o melhor jantar da minha vida", dizia... (ainda bem!)
Hoje alguém me (re)lembrou deste meu espaço... não que o tivesse esquecido, apenas não sabia bem o que queria escrever. Tenho tido uns dias algo agitados, com bastante trabalho, bastante bom convívio, bastante Capoeira... e tem sobrado pouco tempo para ficar em casa e tirar o tempo para escrever aqui. Hoje foi um dia bom, tranquilo, de passeio e cinema. Sentiu-se a moleza no ar, algum cansaço... mas o dia estava bonito, o sol radiante, daqueles dias de Inverno, frios, mas repletos de luz. E regressei a um local que me é tão querido e do qual tinha saudades... a serra da Arrábida. Já não me lembrava do silêncio que a envolve, da tranquilidade, daquela vista deslumbrante de Tróia... e voltei a apaixonar-me pelo lugar. E viver novamente este paraíso, com mimos, boa companhia, sorrisos e boa conversa, soube a ouro. Uma boa forma de celebrar as datas festivas em que estamos, restabelecer energias e matar saudades tuas, também. E ir ao cinema foi algo que parece que não fazia, igualmente, há muito tempo. Um filme descontraído, o som de dezenas de pessoas a comer pipocas, tu e eu. Temos de o fazer mais vezes.

Thursday, December 1, 2011

A família veio em peso. Apenas alguns dias após a sua morte, de lágrimas nos olhos, face triste, ombros carregados pelo peso da sua ausência. Mas vieram, porque faziam questão de agradecer a toda a equipa o apoio, os cuidados prestados. Um nó na garganta e a minha incapacidade para dizer muito mais para além de lhe apertar a mão. Não partilhamos a dor da mesma maneira, mas recordamos ao vosso lado os seus últimos momentos. E relembro aquele pequeno toque na testa que lhe dei, procurando uma resposta à minha pergunta que não tinha chegado no tempo previsto. A forma como esse pequeno toque nos permitiu comunicar e fez sorrir a sua família, por momentos.