Sunday, January 13, 2008

Prometo que te ensinarei a nadar...


"Percebi que não saberia responder à pergunta de uma forma fácil e rápida. Sinto que, aconchegado em mim, também te questionaste… Estaria a imaginar? Nem eu sei bem o que esperar de mim… olho para esta minha barriga, tão redonda, tão perfeita, e vejo-te pequeno, reguila, brincalhão… a correr de um lado para o outro. Feliz. Acho que podem esperar que eu te faça feliz, todos os dias. E que te abrace, e que te beije. A pergunta parece empurrar-me para um muro alto, intransponível, onde não posso fugir à resposta. E eu não consigo responder sem pensar ou falar de ti. Isto se calhar porque o que se poderá esperar de mim sejas tu. Uma nova vida, uma nova força. Um pequeno vulcão pronto a lançar o fogo que destrói mas que, com o tempo, transforma. É como se tu próprio fosses a resposta. Arrisquei continuar a acreditar que sobreviveria à formação desse vulcão. E ainda acredito. É como se tu próprio fosses a resposta. É a vida que em ti, por ti, responde. É como as árvores, as flores, o vento, os rios, os mares. Quem pode justificar a sua existência senão a vida, este dinamismo que indiferente aos cataclismos e tempestades continua a unir o momento que passou ao momento que virá? Está quase a chegar a altura de comprovares por ti mesmo que esta ciência da vida, este riso da natureza e do humano existe. Está quase. Não tarda nada estarás aqui, comigo e com o mundo. Prometo que te ensinarei a nadar. Voltarás assim à água em que, em mim, foste feito. Agora percebo o brilho que se me abeira aos olhos quando falo de ti. És já vida: minha, tua, nossa. É tão estranho, e também tão lindo, dizer isto. És no fundo o que eles podem esperar de mim. És tu a resposta a todas as minhas perguntas. Um pedaço de céu, mar, vento, terra… um pedaço de mim. Para sempre."




Recupero este texto que foi meu e de Mariana, aquela personagem que interpretei há uns anos atrás num projecto que uniu um grupo de amigos que queriam fazer algo diferente. Surgiu então o teatro Andamento, da ESECGLx, que se mantém hoje, com várias peças apresentadas com grande sucesso, mas ao qual deixei de pertencer passado um ano por uma série de razões das quais não importa falar aqui. A essência desta peça, era a de que cada um criasse a sua personagem e o seu texto... e observando com atenção, o que me chama mais a atenção é que cada um criou alguém não tão distante assim da sua própria pessoa... alguém que idealizamos, que faz parte do nosso inconsciente ou do nosso "querer ser" futuro, que tem um pouco do nosso lado mais imaginário mas, não por isso, menos nosso. Foi sem dúvida uma grande experiência e o texto... continuo a gostar particularmente dele.

As imagens ficam... porque também gosto delas.




Vou falar-vos do meu avô.

Vou falar-vos do meu avô.
Decidi fazê-lo porque, apesar de ter partido ainda era eu nova, a memória dele e dos momentos que nos primeiros 6 anos de vida partilhei com ele, estão muito presentes. Porque é uma pessoa que merece ser lembrada. Porque era o meu avô.
Aquele sorriso que todos os dias, quando o ia visitar ao Porto, me recebia com um abraço apertado, empurrando a minha face contra aquele peito acolhedor. Tinha aquele postura altiva dos homens de antigamente, uma voz que impunha o seu respeito e marcava o seu lugar.
Pegava em mim, e no meu irmão, e levava-nos a dar grandes passeios junto ao mar, mostrando-nos o que era a vida, em pequenos gestos. Fez-me perceber que nem toda a gente vive sem fome, que nem todas as pessoas se deslocam para casa de carro (não por opção)... Ensinou-me que, em geral, as pessoas não são más e que é essencial confiar nos outros porque ao fazê-lo acreditamos no ser humano e na lógica da vida e de estarmos aqui, dia após dia.
Tornou-me também na gulosa que sou. Dava-me sempre um pacote de Sugus de morango com o qual me deliciava (e que agradecia sempre, porque me ensinou também o valor de um "obrigada").
Mantinha o seu ar sério sempre, em todo o momento. Mas percebia-se o amor que nutria pela sua família.
Foi um homem lutador, daqueles que passou dificuldades mas nunca deixou os seus filhos descalços ou sem educação. Acreditava, desde sempre, que um dia o nosso país seria livre e não se calou durante a revolução de Abril.
Era também um grande fotógrafo. Com a sua máquina registou grandes momentos em família, daquela maneira que só ele sabia fazer. Apanhando-me distraída, na minha infância, nos meus jogos, na minha forma de ser vaidosa para a câmara então... captava as cores e as formas... mas muito mais que isso.
Foi ele também que me mostrou, por primeira vez, o que era a doença, a degradação de uma pessoa e do corpo... e a incapacidade que às vezes, mesmo sendo na altura apenas uma criança, temos de lidar com essas situações. Ficava parado, durante imenso tempo, com dois cigarros apagados na boca... sem fazer nada. Já, talvez, não muito cá, jazia na cama e naquele quarto escuro... dependente daqueles que dele dependeram para nascer, e concerteza, não confortável com a situação... aqueles que olhavam a todo momento para ele com um amor inabalável e um tremendo medo de o perder... E eu, já não o queria ver. Não queria entrar naquele quarto, sentir aquele cheiro e aquela escuridão moribunda.
Ensinou-me também o que era a morte. A dor da perda, as lágrimas... e como é difícil quando é nossa... nossa por ser de alguém que é nosso, nos é querido, faz parte da nossa vida... é importante. Esse Natal não foi feliz... ele não estava lá e as emoções não eram as melhores. As prendas não foram importantes. Recordava-se, à minha volta, aquela enorme pessoa, em silêncio... e eu, ainda criança, não conseguia perceber muita coisa... aliás, pergunto-me se verdadeiramente percebi aquela frase, dita pela minha mãe, enquanto me acordava suavemente: "Ana, tens que acordar... vais para casa da Bé... está bem? O Avô morreu..."

Com ele percebi, só muito mais tarde, que mais eterna que a morte, é o amor... Daí a saudade e as conversas que o relembram tantas e tantas vezes nas reuniões de família.

A ti, todo o meu amor. E esta minha pequena homenagem...

Thursday, January 10, 2008

Simplesmente porque amanhã é um novo dia.

Hoje apetece-me escrever. Não conseguindo perceber sobre o quê, achei que recordar coisas que fiz ao longo da minha vida, boas e más, me poderia ajudar... ajudar a perceber que sinto-me hoje mais inerte, mais apagada... mas que se olhar para trás vou perceber que não é bem assim... e que não será assim amanhã, simplesmente porque é um novo dia.
Já andei horas a fio, sem ter um objectivo concreto, apenas para pensar... ou acalmar pensamentos... e no final do passeio, estava tranquila. Experimentei vários tipos de bebidas com alcóol e não gosto especialmente de nenhuma, mas tenho um carinho especial pelo Arehucas. Dancei à luz da lua, só de bikini e saia, numa noite de calor intenso... num país de ritmos intensos... e dei um mergulho no mar no final da noite. Já fumei xixa, tabaco e charros... e, sabendo-me muito bem esporadicamente, não acho que me conseguisse viciar a nenhum dos três. Apanhei um avião sem saber muito bem o que me esperava do outro lado... e adorei a sensação. Já beijei pessoas que, se pensasse bem, não teria beijado, mas não me arrependo. Falei uma noite inteira com a mesma pessoa e não me dei conta do tempo passar. Chorei a rir com piadas secas, daquelas que só estando muito disposta a ouvi-las, conseguimos perceber que têm realmente piada. Chorei a ouvir música, em concertos, no meu quarto, no meu carro. Tantas e tantas vezes. Abracei desconhecidos que ofereciam "abraços grátis" debaixo da Torre Eiffel e não me senti incomodada. Saí de um quarto do meu serviço por, simplesmente, não conseguir encarar uma determinada situação. Sorri, várias vezes, com crianças que olham para mim e me sorriem de volta (e adoro deitar-lhes a língua de fora!). Cantei, tantas vezes, com os meus amigos, canções de ontem, hoje e amanhã. Fui outra pessoa, durante uma hora, com uma grande barriga de grávida e muitas pessoas a olharem para mim (e adorei, ao mesmo tempo que me senti invadida). Percebi que algumas coisas acabam, antes mesmo de admitirmos que acabaram. Vi como se processa uma morte e entendi que pode não ser tão assustadora quanto pensamos. Suei, litros, a exercitar o meu corpo. Fiz capoeira no Brasil, com capoeiristas brasileiros que me tentaram ensinar a tocar birimbau. Já fiz um slide de 200 metros a 500 metros de altura... e senti-me imensamente grande... e imensamente pequena. Escrevi montes de textos... uns de que ainda gosto, outros que já nem quero ler. Tive quem me desse um nome em lingua gestual... o que me fez gostar ainda mais de "falar por gestos", ainda que não o saiba fazer. Olhei para fotografias e senti-me a viver de novo os momentos que as mesmas retratavam. Senti impotência perante tantas situações... que não me consigo lembrar de todas. Amei... amo todos os dias o facto de saber o que é amar a vida, mesmo quando estou mais triste, como hoje. Tentei perceber como se vê a hora do dia a que estamos pela posição do Sol... e percebi que gosto de relógios ou então de andar à deriva no tempo (e gosto de pensar que "tempo, é o que fazemos com ele"). Já me irritei de tal forma que o meu corpo tremia todo... em mais do que uma ocasião... e percebi que a minha reacção imediata é, habitualmente, desatar a chorar (e não gosto dessa sensação, porque não gosto de perder o controlo). Já puncionei um senhor no braço, à primeira, que mais ninguém conseguiu puncionar, e que acabava sempre por ficar com um catéter na perna (porque nunca quis um central). Mostrei um bebé por primeira vez aos pais e avós... e senti-me imensamente feliz nesse momento. Ouvi, pela primeira vez na vida, há pouco tempo, que ia ser tia! (e agora sim, parece que está tudo no bom caminho...). Disse muitas vezes aos meus pais que os amo (mas nunca parecem suficientes...)... e também já discuti muitas vezes com eles. Senti-me sozinha no meio de uma multidão e acompanhada no silêncio do meu quarto vazio. Recebi mensagens a que não queria responder. Nunca disse "amo-te" numa relação... apesar de o ter sentido (e hoje percebo que não devo deixar de o dizer). Fui covarde, em tantos momentos, por não me atrever a fazer e dizer algumas coisas. Mergulhei em mais do que um oceáno neste nosso mundo. Já estive em 3, dos 5 continentes. Percebi que nem todos os dias nos sentimos bem connosco e com o nosso corpo. Recebi presentes que "tinham a minha cara" (e gostei que, quem mos deu, soubesse isso). Ofereci presentes que eram a cara da pessoa que os ia receber (e é dessa maneira que gosto de dar presentes). Senti a força de um toque, de uma palavra no momento certo, da pausa e o silêncio essenciais... naquelas aulas de uma professora que via a Enfermagem como eu gosto de a ver (e não me esquecerei jamais de si, professora Arlete). Senti-me frustrada por não ser valorizada em momentos em que senti necessidade de o ser (e senti-me feliz, quando o contrário aconteceu). Sinto um enorme orgulho do meu irmão e adoro os momentos que passamos juntos... (mesmo quando me irrito profundamente com ele, que também acontece). Já fiz de baby-sitter de vários miúdos ao mesmo tempo (os meus primos) e dei conta do recado. Percebi o quanto é difícil deixar partir alguém... Mudei de casa 4 vezes e sei que empacotar tudo não é a coisa mais gira do mundo. Vi todas aquelas coisinhas que vamos guardando ao longo da vida e que um dia, simplesmente, deitamos fora, porque já não faz sentido as termos a encher os armários (mas no entanto, damos uma última vista de olhos e sorrimos uma vez mais ao olhar para elas).
Sei lá... nem sei bem o que é este texto. Sei sim que são horas de dormir... amanhã espera-me mais uma tarde de trabalho e agora, umas páginas de mais um livro... porque me sabe bem.



A memória é a nossa interpretação do que vivenciámos...

Tuesday, January 8, 2008

É por isso que o amor é cego... e louco.

Dizem que um dia, num lugar da terra, todos os sentimentos e qualidades dos Homens se reuniram. Quando o aborrecimento já tinha bocejado por terceira vez, a loucura, como sempre tão louca, propôs:
- Jogamos às escondidas?
A intriga levantou a sobrancelha intrigada e a curiosidade, sem se conseguir conter, perguntou:
- Às escondidas? E como é isso?
- É um jogo em que eu tapo os olhos e começo a contar desde um até um milhão enquanto vocês escondem-se e quando eu tiver terminado de contar o primeiro que encontrar ocupará o meu lugar para continuar o jogo - explicou a loucura.
O entusiasmo dançou acompanhado pela euforia. A alegria dava saltos, acabando por convencer a dúvida e, até, a apatia, que nunca se interessava por nada.
Mas nem todos quiseram participar. A verdade preferiu não se esconder... para quê? Acabavam sempre por a encontrar! E a soberba opinou que o jogo era muito estúpido (no fundo, o que a chateava, é que a ideia não tinha sido sua)... e a covardia preferiu não arriscar.
- Um, dois, três... - começou a loucura.
A primeira que se escondeu foi a preguiça, que como sempre, deixou-se cair atrás da primeira pedra do caminho. A fé subiu ao céu e a inveja escondeu-se atrás do triunfo, que com o seu próprio esforço tinha conseguido subir ao topo da árvore mais alta. A generosidade quase não conseguia esconder-se já que cada local que encontrava lhe parecia maravilhoso para algum dos seus companheiros de jogo, pelo que acabou por se esconder atrás de um pequeno raio de sol. O egoísmo, pelo contrário, encontrou um sítio muito bom desde o início... e só para ele!
A mentira escondeu-se no fundo do mar... mentira! Na verdade escondeu-se atrás do arco-íris; a paixão e o desejo no centro dos vulcões...
O esquecimento? Esqueci-me de onde se escondeu! Mas também não é relevante...
Quando a loucura contava 999999, o amor ainda não tinha encontrado um lugar para se esconder, pois todos se encontravam ocupados... até que avistou uma roseira e decidiu esconder-se entre as suas flores.
- Um milhão! - contou a loucura, começando a procurar.
Foi encontrando todos e cada um dos amigos. Ao aproximar-se do lago para beber, por exemplo, descobriu a beleza. E a dúvida... essa foi fácil! Encontrou-a sentada numa pedra sem conseguir decidir em que lado da mesma se esconder. A angústia descobriu-a numa escura gruta e ao esquecimento... por aí! Ele deambulava, meio perdido, pois já se tinha esquecido que estava a jogar.
De todos, só o amor não aparecia em lugar algum. A loucura procurou debaixo de cada árvore, de cada pedaço do planeta, no topo das montanhas... e quando estava para desistir, avistou a roseira com todas as suas rosas. Apanhou um ramo e começou a separar as rosas, quando de repente, um angustiante grito foi escutado. Os espinhos tinham ferido os olhos do amor. A loucura não sabia como pedir desculpa... chorou, implorou e prometeu ser o seu escravo.
Desde esse dia, e até hoje, o amor é cego... e a loucura acompanha-o sempre.

Uma história lida há muitos anos atrás... e que explica tanto de uma forma maravilhosamente infantil.
Ambos estão sempre unidos porque é necessário ser-se um pouco louco para amar alguém. Arriscar, tropeçar e cair... magoar... faz tudo parte. Só que o "outro lado da moeda" é bom demais para desistir de arriscar. Mesmo que voltemos a cair... because everybody hurts, sometimes...

... once you hold the hand of love,
it's all surmountable
hold me and make it the truth
that when all is lost there'll be you
cuz to the universe,
I don't mean a thing

and there is just one word i still believe
and it's love ...

Friday, January 4, 2008

E tudo mudou...

E tudo mudou...

O rouge virou blush. O pó-de-arroz virou pó-compacto. O brilho virou gloss. O rímel virou máscara incolor. A Lycra virou stretch. Anabela virou plataforma. O corpete virou porta-seios, que virou sutiã, que virou lib, que virou silicone. A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento. A escova virou chapinha. "Problemas de moça" viraram TPM. Confete virou MM. A crise de nervos virou estresse. A chita virou viscose. A purpurina virou gliter. A brilhantina virou mousse. Os halteres viraram bomba. A ergométrica virou spinning. A tanga virou fio dental. E o fio dental virou anti-séptico bucal.

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo. O a-la-carte virou self-service. A tristeza, depressão. O espaguete virou Miojo pronto. A paquera virou pegação. A gafieira virou dança de salão. O que era praça virou shopping. A areia virou ringue. A caneta virou teclado. O long play virou CD. A fita de vídeo é DVD. O CD já é MP3. É um filho onde éramos seis. O álbum de fotos agora é mostrado por email. O namoro agora é virtual. A cantada virou torpedo. E do "não" não se tem medo. O break virou street. O samba, pagode. O carnaval de rua virou Sapucaí. O folclore brasileiro, halloween. O piano agora é teclado, também. O forró de sanfona ficou eletrônico. Fortificante não é mais Biotônico. Bicicleta virou Bis. Polícia e ladrão virou counter strike. Folhetins são novelas de TV. Fauna e flora a desaparecer. Lobato virou Paulo Coelho. Caetano virou um chato. Chico sumiu da FM e TV. Baby se converteu. RPM desapareceu. Elis ressuscitou em Maria Rita? Gal virou fênix. Raul e Renato, Cássia e Cazuza, Lennon e Elvis, todos anjos, agora só tocam lira... A AIDS virou gripe. A bala antes encontrada agora é perdida. A violência está coisa maldita! A maconha é calmante. O professor é agora o facilitador. As lições já não importam mais. A guerra superou a paz.



E a sociedade ficou incapaz...

... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças.


Luis Fernando Veríssimo

Dar não é fazer amor

Dar é dar. Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido. Mas dar é bom pra cacete. Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca... Te chama de nomes que eu não escreveria... Não te vira com delicadeza... Não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom. Melhor do que dar, só dar por dar. Dar sem querer casar.... Sem querer apresentar pra mãe... Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo. Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral... Te amolece o gingado... Te molha o instinto. Dar porque a vida é estressante e dar relaxa. Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã. Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito. Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro. Dar é bom, na hora. Durante um mês. Para os mais desavisados, talvez anos.

Mas dar é dar demais e ficar vazio. Dar é não ganhar. É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar: "Que que cê acha amor?". É não ter companhia garantida para viajar. É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia. Dar é não querer dormir encaixadinho... É não ter alguém para ouvir seus dengos... Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito.

Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor. Esse sim é o maior tesão. Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar

Experimente ser amado...

Luis Fernando Veríssimo

Wednesday, January 2, 2008

"Nit nit ay garaban" - o homem é o melhor remédio do homem?

Há dias assim. Dias em que não estamos tão bem e em que parece que não há grande coisa que nos motive...
Estou de saída de vela (para quem não é enfermeiro, esta é uma expressão usada para dizer que fiz noite de ontem para hoje). O turno foi estranho. A companhia era boa, porque com a Joana eu acabo por ter longas conversas e distrair-me um pouco, mesmo quando o turno não está a decorrer como gostaria.
Começou com a frase da S. - "tenho uma má notícia... o sr. da cama 11 faleceu". Parámos. Da nossa sala de trabalho, através do vidro, conseguíamos ver o sr, deitado na sua cama. Sim, estava morto, claramente morto. Fomos lá. Estava quente. "Ainda há pouco o sr estava perfeitamente bem", dizia a minha colega. Mas estava quente. Morto, mas quente. Chamámos a médica e iniciámos manobras... (para quê?) Esperava que a chegada da médica trouxesse a decisão de parar. Parar tudo aquilo. Aquela violência. Sim... eu sei que gosto de emergência e faço formação na área... mas não, não devemos sempre, em qualquer situação, iniciar manobras. Há casos e casos. O sr já era velho, já tinha vivido a sua vida... com uma neoplasia, uma infecção respiratória e sei lá mais o quê... Sim, não se esperava que falecesse já... mas... e então? Tudo martelava cá dentro enquanto passava a meia-hora, meia-hora de actos invasivos e dolorosos, desnecessários... tudo para cumprir um protocolo. Meia-hora em que o quente deu lugar ao frio. A palidez à cianose. A pele marmoreada surgia, de baixo para cima. Senti-me ridícula. Custou-me. Acredito que isto não é dar a dignidade na morte, que qualquer pessoa merece. Aquele som, durante as compressões, que ali me ressoava na cabeça. Parti, sim, mais do que uma provavelmente. Para quê?
E depois, no final do turno, tudo feito à pressa... porque havia tanto para fazer. Sem tempo: para digerir, para estar com eles como deve ser, para respeitar o seu tempo.
A morte é o espaço e tempo mais íntimo de alguém e interferir nele, fazer parte dele, é uma experiência grandiosa. Mas nem sempre se respeitam os princípios básicos daquele momento. As vontades daquela pessoa. Nem sempre, enquanto enfermeira, consigo praticar os meus valores face a ela... e isso não é fácil de gerir. Hoje não o fiz.

"Em qualquer situação, importa que os profissionais de saúde ajam para que a morte de um doente, que lhes foi confiado, decorra com respeito pela dignidade humana que lhe é inerente." (Código Deontológico dos Enfermeiros)

Porque a morte não é apenas "a cessação irreversível de todas as funções cerebrais , incluindo o tronco cerebral" (CPEEU cit. por Serrão 1998), mas é também, e sobretudo, a "perda de fluídos vitais, a separação da alma, perda irreversível da capacidade de integração do corpo" (Lima, 2005).

"Morrer, não é como tão frequentemente supomos, um tempo absurdo, desprovido de sentido" (Hennezel, 2005)