Sunday, March 4, 2012

Oskar Schell: "If things were easy to find..."


Thomas Schell: "They wouldn't be worth finding."



Cheguei a casa após ver este filme. De sorriso na cara, com emoção contida. Um filme tão simples e tão complexo. No fundo, sobre aquele dia que mudou o mundo e mudou, para sempre, a cidade de Nova Iorque. A morte de um pai que era amigo, companheiro de aventuras, que era tudo para aquela criança - "I know now that I can live without you...". As palavras que se escutam várias vezes ao longo do tempo... as últimas palavras, o telefone que não se atreveu a levantar. A aventura do encontro de uma fechadura onde aquela chave coubesse... no fundo, a procura dele, que partiu, e que não estava disposto a aceitar que tinha perdido. O encontro daquela outra pessoa, começo de tudo, que esteve ausente tanto tempo... - "Yes... No...", por escrito, em mímica facial, em olhares e sorrisos cúmplices, em mãos tatuadas. Os gestos iguais, as conversas silenciosas que dizem tanto. O encontro de tantos e tantos rostos, inúmeras histórias... as "cores" da cidade, a multiculturalidade daquele sítio onde se encontra gente de todo o mundo... e onde todos, de um modo ou outro, perderam algo com o 11 de Setembro. A inteligência e inocência de uma criança, o superar de medos... A criação de um livro que mostra uma aventura. A imagem do corpo a cair... E o (re)encontro com aquela mãe... aparentemente perdida, e afinal tão presente. Uma forma inteligente e brilhante de retratar um acontecimento historicamente demasiado avassalador, fazendo lembrar um pouco aquele outro filme, A Vida é Bela, e a forma como um outro acontecimento histórico de consequências devastadoras para a Humanidade, é retratado sob o olhar de um jogo de criança.

Recomendo a quem possa ver e a quem não possa, recomendo que faça por poder. Encheu-me as medidas.

Tuesday, February 14, 2012

Mais um dia 14 de Fevereiro... aquele dia onde só se vê corações nas montras, ursinhos de peluche por todo o lado, casais a sair para jantar nos múltiplos restaurantes da cidade... aquele dia que dizem ser o dia do amor. Sim, como a grande maioria das pessoas, poderia dizer: "não ligo nenhuma... mais um dia para o capitalismo". Pois sim, mas quando não se pode partilhá-lo com alguém com quem tal faça sentido, isso mexe connosco. E a verdade, é que se ninguém ligasse os restaurantes não estariam cheios, em casa não se preparariam jantares especiais e nas lojas não se comprariam prendas para o companheiro/a. Não quero saber das prendas... mas quero os beijos, a partilha, os abraços, as palavras, os olhares. E este ano, como tantos outros, não o vou ter. E hoje, um dia ainda mais especial, porque sim... porque me traz boas memórias... me lembra um começo de algo. E estou sozinha. E vou trabalhar mais logo. E quero que o dia acabe rapidamente porque gostava que "alguém" compreendesse mas não me parece que isso aconteça.


Why is love not enough?...

Saturday, January 14, 2012

Quanto mais conheço algumas pessoas e algumas histórias de vida, mais me apaixono pelo ser humano. Pela complexidade dos nossos pensamentos, da nossa forma de sentir, de amar, de ultrapassar obstáculos inimagináveis... É verdade que também me desiludo, também me choca o que as pessoas são capazes de fazer, a maldade que conseguem carregar dentro de si. Mas o ser humano fascina-me...

Sunday, January 8, 2012

Apetece-me falar de si. Com períodos de um trato rude, de protesto com os cuidados recebidos ou com a desorganização do serviço, tudo acalmava quando recebia um pouco de atenção e alguém conversava um pouco consigo. A sua doença, em estadio terminal, "comia-lhe" o sangue que lhe dávamos a uma velocidade exasperante e os benefícios que as transfusões lhe traziam duravam apenas alguns dias... dias esses em que se sentia revigorado, cheio de energia e força, acreditando que tudo poderia ficar bem. Numa das nossas conversas falou-me dos seus gatos. Notei no seu tom uma saudade imensa, um amor não mensurável, um desejo enorme de os ver. Falei com a equipa. Podíamos propôr à família que trouxesse os gatos até ao serviço mas o senhor, quando confrontado com essa ideia, disse logo que lhe parecia difícil, porque achava que nem a filha nem o neto conseguiriam apanhá-los para os pôr no meio de tranporte adequado. Nova conversa, desta vez multidisciplinar. Quando parar em relação a este senhor? Ainda que as transfusões acarretassem benefícios, eram a demasiado curto prazo e o sangue é um bem essencial que não pode ser usado sem critérios. A decisão: última transfusão, para permitir que o senhor recuperasse o "fôlego" para se deslocar na companhia da família a casa e passar o dia com os gatos. Algo aparentemente tão banal, tão irrisório. Regressou com um sorriso que nunca lhe tinha visto. Ainda que sempre tenha sido difícil para si compreender que a sua morte estava perto (negação talvez, de um prognóstico que ninguém quer para si...) algo parecia prendê-lo cá. Aquele sorriso emanava calma, tranquilidade, ponderação. Dois dias depois regressou em força o cansaço, a diminuição da força... e tinha chegado o momento de parar. Não mais sangue, como se tinha decidido. Apenas medicação para quem, demasiado consciente de tudo o que se passava à sua volta, via o momento final a aproximar-se... evitando dor, evitando dificuldade respiratória... Tudo se passou rapidamente, muito mais rapidamente do que qualquer um de nós estava à espera. E calmamente... Creio que fez a sua despedida, concretizou o seu último desejo. E na companhia de uma família que, durante algum tempo, teve atitudes que são difíceis de entender... mas que também "quebrou" perante o carinho que, creio, se apercebeu que lhe demos durante o seu internamento. O seu sentido para a vida foi, sem dúvida alguma, também o sentido para uma serenidade na morte.

Wednesday, January 4, 2012

O que dizem os meus olhos?...

Monday, December 26, 2011

Natal... no hospital.

Ser enfermeira acarreta algumas coisas menos positivas. Ter de fazer turnos que nos alteram rotinas e o próprio organismo, que não sabe se é hora de dormir, acordar, comer ou trabalhar... é uma delas. Outra, e para mim, a pior de todas, implica que em determinadas datas festivas, que toda a minha vida passei em família, tal como o Natal, eu posso ter de trabalhar. Este ano aconteceu isso. E não foi nada fácil. Entrei às 15h de dia 24 e terminei o trabalho às 9h de dia 25. A tarde foi de muito trabalho, mas permitiu ainda sentir algum do espírito natalício... no entanto, a noite trouxe consigo muita tristeza, muita azáfama, um pequeno grande caos... e trouxe consigo também a morte, tão pouco desejada, e acompanhada de muito sofrimento, com imagens que acho, não vou esquecer tão cedo... as lágrimas vieram-me aos olhos por várias vezes durante a noite e tudo o que me apetecia era o calor da minha casinha e a companhia de quem quero bem... família e amigos. Valeu mesmo estar a trabalhar com uma colega que, antes de mais, é também amiga, e ver alguns sorrisos bons de um ou outro doente que desfrutaram de uma rabanada ou de uma saída rápida do serviço para um jantar com os amigos... "e foi o melhor jantar da minha vida", dizia... (ainda bem!)